Quase cochilando em sua cadeira, no meio de uma tarde de trabalho, resolveu se levantar para não acabar dormindo. Se perguntava se beber até as 3h da manhã de uma terça-feira era um indício de alcoolismo, ou um tapa na cara da sociedade que se mata de trabalhar durante o dia e só se diverte aos finais de semana. Estava um pouco preocupado por ter mandado uma mensagem para o seu último affair quando chegou em casa, mesmo se tratando apenas de uma brincadeira (com fundo de verdade). Celulares realmente não devem ficar próximos de pessoas quais não estão dotadas de suas plenas faculdades mentais.

De qualquer forma, no momento isto não importava muito, já que a prioridade era apenas se despertar a fim de poder continuar trabalhando. Resolveu ir à sala ao lado, onde estava seu chefe, para comentar sobre as atividades desempenhadas até então e beber um pouco d’água. Chegando lá, lhe foi informado que sua prioridade seria providenciar a papelada referente a sua contratação. Estava sem vontade nenhuma de sair do escritório se não fosse para ir embora, mas não havia outra alternativa senão ir ao centro da cidade realizar o exame admissional, tirar fotos 3x4, etc.

Havia notado, quando adentrou a sala, que nela haviam duas pessoas estranhas ao escritório. Como ambas estavam de costas, não fazia ideia de quem seriam. Foi somente ao ir buscar o número do telefone da clínica e voltar para a mesma sala quando percebeu que, na verdade, uma daquelas pessoas lhe era muito familiar. Nisso começaram as indagações: “Mas… Ela?! O que ela faz aqui? Se ela se formou em Direito, deveria estar lidando com o setor jurídico da matriz da empresa e não aqui neste escritório. Se ela se formou em Arquitetura, faz um pouco mais de sentido, mas ainda assim não é a arquiteta que veio aqui na semana passada…”. No fundo, não lhe interessava o motivo, independente do quão curioso este fosse. Pois por mais improvável que parecesse aquela situação, independente de quais circunstâncias levaram isto a acontecer, aquela era a sua primeira namorada. Sua vontade era de afagá-la, abraçando-a como se não houvesse amanhã - como o fez quando se despediram pela última vez (quando de fato não houve “amanhã”), mas lembrou-se que esta permissão lhe foi revogada há quase sete anos atrás. Restringiu-se a um singelo e tímido abraço, desses que se dá a velhos amigos, independente do sexo.

Saindo do escritório, com o intuito de resolver as pendências contratuais, riu sozinho quando estava no elevador. Olhando pro espelho, se deu conta de que a camisa qual estava trajando foi presente dela. “Meu deus… Quais as chances disso acontecer? Só vesti esta camiseta velha porque era uma das últimas que estavam passadas…”, suspirou. Começou a cogitar se aquelas coisas realmente estavam acontecendo, quando chegou na mesma clínica qual havia feito o exame admissional do seu primeiro emprego - acontecimento datado de mais de cinco anos atrás. O ano seria 2014, 2007 ou 2009? Poderia um dia que tinha tudo para ser pacato e corriqueiro, tornar-se-a completamente anacrônico? A situação ficou ainda mais curiosa, quando chegando no estúdio de fotografia, o único funcionário que ainda estava lá era o mesmo que havia tirado suas fotos 3x4 na época da sua primeira contratação.

Enquanto esperava as fotos serem “reveladas”, cogitou estar nos anos 90 por um breve momento, quando demorou a entender que a moça do estúdio quis dizer que as mesmas estavam sendo impressas. Aproveitou aqueles poucos minutos para pensar na vida, tentando ligar o passado com o presente, imaginando como seria o futuro. Se deu conta de que, como sempre, não fazia ideia do que viria. Mas depois de tantos fatos passados terem sido trazidos a tona no mesmo dia, só tinha certeza que seu maior anseio continuaria sendo a vontade de vivenciar as próximas surpresas que o tempo lhe trará.