Hoje estou postando uma entrevista exclusiva com Carlos Henrique Miranda Rodrigues, o “Carlão”, que atualmente está no Canadá realizando intercâmbio através do programa Ciência Sem Fronteiras, do Governo Federal. Antes de mais nada, gostaria de agradecer a ele por ter disponibilizado um tempinho em sua apertada agenda para responder a estas dez perguntas. A entrevista foi realizada por e-mail há alguns meses atrás e respondida no tempo livre que ele obteve com a chegada das férias de verão.

Primeiramente, gostaria de agradecer a sua disposição em participar desta entrevista e pedir que se apresentasse para o público que não lhe conhece. Por favor, fale-nos um pouco sobre sua naturalidade, onde estudou nos ensinos fundamental e médio, sua experiência acadêmica na Unimontes, etc.

Muito obrigado a você pela iniciativa da entrevista, creio que sera muito válido. É sempre muito bom esta troca de experiência entre os acadêmicos e fico feliz de poder colaborar um pouco com isso.

Pra quem não me conhece meu nome é Carlos Henrique. Tenho 21 anos e faço Sistemas de Informação na Unimontes. Desde setembro do ano de 2012 eu moro no Canadá, onde faço parte de um programa do Governo Federal chamado Ciência sem Fronteiras. O propósito do programa e basicamente enviar estudantes de graduação e doutorado para que eles possam fazer parte do seu curso ou complementá-lo no exterior. Sou natural de Montes Claros, Minas Gerais, mas minha família sempre viveu em uma cidade próxima chamada São Francisco, onde morei por quinze anos. Estudei durante o meu ensino fundamental em escola pública e no ensino médio recebi uma bolsa de estudos em um cólegio particular de Montes Claros. Em 2010 comecei o curso de Sistemas de Informação na Unimontes. A minha experiencia acadêmica se baseia no meu envolvimento com a Empresa Júnior do curso, a INFOBITS, da qual fiz parte como membro associado e posteriomente diretor financeiro.

Como e quando você se decidiu pelo intercâmbio? Você já tinha alguma experiência no exterior? Por que optou pelo Canadá?

Desde de muito antes do Ciência sem Fronteiras eu já tinha essa curiosidade de vir para o exterior para poder saber realmente como as coisas funcionam por aqui, se era realmente tudo do jeito que todo mundo falava. No entanto no início do ano de 2011 eu soube a respeito do programa e decidi me inscrever porque, afinal de contas, não iria perder nada me inscrevendo. A princípio eu havia escolhido Austrália como a minha primeira opção de país hospedeiro, na Queensland University. Entretanto, eu necessitava de uma “Carta de Aceite” da universidade no exterior, na qual me aceitariam como um Acadêmico Visitante (Visitor Student). Foi então que neste ponto a Pró-Reitoria de Pesquisa da Unimontes entrou em contato com acadêmicos que foram selecionados pelo programa e disseram que a Unimontes tinha algumas parcerias com Universidades no Canadá e que, se optassemos pelo mesmo, poderíamos ter uma maior chance de sermos aceitos pelas intituições no exterior. Dentre essas universidades que nos foram indicadas a Universidade de Alberta me chamou um pouco mais a atenção e resolvi optar por ela.

Como foi o ingresso no Ciências Sem Fronteiras? Você teve ajuda de alguém da Unimontes durante o processo? Quais foram as dificuldades enfrentadas antes de você embarcar de fato?

A primeira pessoa que mencionou acerca do programa e me disse que eu deveria tentar foi a Profa. Christine, do Curso de Sistemas de Informação, onde na época eu cursava a disciplina de Análise e Projeto de Sistemas II que ela ministrava. Logo após houve uma seleção na Unimontes na qual participei e fui selecionado como um dos elegíveis a participar do programa. Em seguida fiz a minha inscrição e a Unimontes reuniu os academicos que foram selecionados, onde foi mencionada a questão das parcerias que a Universidade tinha com algumas instituições canadenses e como esta parceria poderia facilitar o aceite nas instituições de destino. Foi então que conheci o Prof. Dr. Mário Nascimento do Curso de Ciências Biológicas, a quem tenho muito a agradecer pela ajuda. O Prof. Mario Nascimento desenvolve um projeto juntamente com o Prof. Dr. Arturo Sanchez na Universidade de Alberta e ele disse que poderia me ajudar a contactar a Universidade de Alberta, onde através do Dr. Arturo eles poderiam me conceder uma “Carta de Aceite”. Depois de alguns emails trocados com o Escritório Internacional da Universidade de Alberta e o Dr. Arturo eu consegui a carta.

A primeira parte do processo eu tinha conseguido, faltava então a questão do visto para o Canadá. Para aplicar para o visto eu precisei ir a Brasília, Distrito Federal, para realizar alguns exames médicos e depois de um mês eu recebi o passaporte com o visto.

O momento em que eu percebi que realmente iria para o Canadá foi quando recebi a primeira parcela do pagamento na minha conta bancária. Antes disso tudo era incerto, ou pelo menos era o que eu achava. Duas semanas antes do meu visto chegar eu havia recebido a remuneração em minha conta bancária e comecei a comprar passagem e resolver onde iria morar aqui. Nesse meio tempo eu havia descoberto alguns grupos em redes sociais e listas de discussões por e-mail da Universidade de Alberta onde as pessoas postavam sobre a universidade ou postavam anuncios de vagas em apartamentos e casas, pessoas vendendo móveis e etc. Foi então que conheci o Bernardino. O Bernardino é Mexicano e terminou recentemente um Curso de Mestrado em Business. Ele me disse que morava com mais dois mexicanos e uma outra pessoa da Romênia e que tinha um quarto sobrando. Então a gente comecou a conversar por vídeo-conferência, vi algumas fotos da casa e optei por vir e ficar aqui na casa que eles já tinham alugado.

As principais dificuldades nessa história toda foram o curto espaço de tempo em que as decisões deveriam ser tomadas, a quantidade de documentos que tive que providenciar e enviar para o exterior e para o Governo Federal, além do lugar pra eu poder ficar no Canadá. Todo esse processo de envio e recebimento de documentos, aprovações e tudo mais aconteceu muito rápido. Se não me engano foram no maximo três meses entre ser aprovado e embarcar.

Como você foi recepcionado ao chegar em solo canadense? Você sentiu algum preconceito devido ao fato de ser brasileiro?

Uma das grandes vantagens de ter vindo para o Canadá está completamente ligada a receptividade que tive aqui. O fato de que sou estrangeiro e que não falava a língua fluentemente (não que agora eu seja um expert na língua inglesa, mas agora me viro muito melhor do que quando cheguei aqui) não siginificava nada. O que quero dizer é que existem muitos estrangeiros de todas as partes do mundo aqui, o que faz com que as pessoas acabem sendo muito compreensíveis na maioria das vezes. Me recordo de quando desembarquei no aeroporto de Toronto e um senhor me atendeu no Serviço de Imigração e ele foi extremamente gentil e compreensível, mesmo meu inglês nao sendo dos melhores. Às vezes, quando eu falava alguma coisa errada, ele me corrigia e se eu não entendia nada ele me explicava tudo novamente e bem devagar e com palavras e expressões simples que facilitavam meu entendimento. Preconceito pelo fato de ser brasileiro eu não tive, no entanto algumas pessoas não são muito educadas com estrangeiros, especialmente se voce não fala o idioma delas perfeitamente, principalmente pessoas mais velhas, mas geralmente todos são muito educados e muito receptíveis.

Quais diferenças você notou no comportamento das pessoas ou na cultura local? Com relação a alimentação, houve mudanças significativas no tocante ao que você estava habituado aqui no Brasil?

Primeiramente, o fato de que você não precisa de ter um diploma universitário para ter um bom salário é algo um tanto quanto diferente pra mim. Conheci um homem que trabalha como pedreiro e ganha $30 por hora. Suponhamos que ele trabalhe 40 horas semanais, então o resultado no fim da semana são $1200. No final de um mes são $4800 (nota do entrevistador: um dólar canadense atualmente vale mais de dois reais, então este senhor receberia quase R$ 10.000,00 por mês trabalhando como pedreiro). No entanto eles não trabalham apenas 40 horas semanais e quando trabalham nos finais de semana esse valor por hora é duplicado. As pessoas geralmente não tem empregada doméstica. Quem geralmente trabalha como doméstica recebe acima de $65 por hora de trabalho. Resumindo, ter um diploma universitário não determina que voce receberá menos que ninguém.

O segundo fator que me chamou bastante a atenção foi o fato de os adolescentes serem muito mais independentes. Geralmente, depois dos 17 anos de idade eles não moram mais com os pais, independentemente se moram na mesma cidade. Raramente você acha alguém que ainda mora com os pais ou que ainda os pede dinheiro. A partir de certa idade eles começam a trabalhar em bares, lojas de roupa ou qualquer outra coisa do tipo pra se auto-sustentar. Como os salarios são bons eles conseguem se sustentar, pagando água, luz, telefone, carro e viagens, por exemplo. Este é um pensamento que vem sendo amadurecido no Brasil, mas aqui é algo muito real e extremamente interessante.

Em relação à alimentação, a única coisa que ainda não consegui me acostumar foi com a questão do feijão. Você acha que nunca vai sentir falta do bom e velho feijão, mas ele faz uma falta incrível. Eles vendem feijão enlatado, mas não é a mesma coisa. Inclusive, na primeira vez que comprei feijão enlatado, escolhi o errado e acabei comendo feijão doce. É possível sim achar feijão normal, só que é um tanto quanto caro e às vezes demora muito pra cozinhar. As frutas fazem um pouco de diferença também. É possível achar de tudo aqui so que às vezes elas não parecem ser naturais do jeito que você está acostumado (pelo menos não do jeito que eu era acostumado). Nao vou entrar nos detalhes do pão de queijo porque é sacanagem. Colocar um mineiro que veio lá de São Francisco sem um pão de queijo durante um ano é muita sacanagem.

Houve alguma situação inusitada que lhe chamou a atenção por ser algo nunca antes visto por aqui? Alguma curiosidade que você queira compartilhar?

Situações inusitadas tiveram muitas. Primeiro de tudo: o inverno. Você nunca sabe o que é inverno até você andar na rua a uma temperatura de -42°C. É meio complicado, mas a gente consegue sobreviver. O fato curioso é que abaixo dos -20°C quando eu saia do lado de fora meus cilios congelavam e grudavam um no outro. Me lembro que na primeira vez que isso aconteceu eu fiquei rindo sozinho na rua. Quando você entra em um lugar quente eles voltam ao normal. Isso também acontece com os pelos no nariz quando você respira.

Culturalmente falando, fiz aulas de inglês aqui durante 3 meses e no final dessa aula tivemos uma pequena celebração em sala de aula mesmo. Me lembro que algumas pessoas estavam se cumprimentando e eu também estava cumprimentando todo mundo. No entanto, quando fui cumprimentar uma garota da Arábia Saudita ela me explicou que não podia tocar em outros homens, por causa da religião dela. Fiquei um pouco constrangido na hora, mas depois fiquei pensando que isso era muito interessante e no quão diferentes as pessoas podem ser.

Como é o seu dia-a-dia? Seus horários de estudo, alimentação e lazer são muito diferentes dos que você estava acostumado?

Geralmente o meu dia se resume a estar na Universidade. Quando estava cursando disciplinas do curso de Ciências da Computação eu tinha aula das 10 da manhã às 6 da tarde, todas as terças e quintas. O restante do tempo eu passava no laboratório do Dr. Arturo onde ajudava e ainda ajudo algumas pessoas com um sistema que eles desenvolvem. Todavia, quando estava em época de provas e trabalhos eles eram bastante compreensíveis e me deixavam estudar para os mesmos no laboratório qual tenho um computador e uma mesa. A partir do momento em que terminei minhas aulas tenho ajudado eles com o sistema web que eles desenvolvem e que tem previsao de término para Agosto. Na verdade se trata de uma nova versão de um sistema que eles já usam há um ano.

Nos finais de semana eu geralmente saio para casa de amigos onde fazemos uma espécie de “churrasco” ou então a gente vai pra algum bar. De um modo geral, não tem muita diferença do que eu estava acostumado a fazer no Brasil antes de vir. Eu trabalhava e estudava durante a semana e nos finais de semana saía com amigos. É claro que às vezes saímos no meio da semana, mas nao é algo muito frequente porque a maioria do pessoal que conheço também estuda.

Em relação à alimentação eu geralmente cozinho em casa e levo pra universidade. Uma das coisas mais úteis que vi aqui foram microondas espalhados por todo o campus. É tão simples você levar sua comida e esquentá-la que a maioria das pessoas faz isso. Existe também a opção de almoçar nos restaurantes do campus, mas é algo um pouco caro pra se fazer frequentemente. Pelo menos a diversidade é considerável: restaurantes chineses, japoneses, coreanos, mexicanos e árabes, alem de pizzarias e lugares onde vendem hambúrgueres e cachorro quente.

Como você descreveria a experiência acadêmica qual está tendo oportunidade de vivenciar? Você sentiu uma diferença muito grande no nível intelectual das aulas ou dos seus colegas?

A experiência que estou tendo aqui no Canada está sendo simplesmente fantástica, não somente pela questão das disciplinas que cursei, mas pelas pessoas que conheci aqui e pela quantidade de coisas que aprendi sobre as mais diversas pessoas no mundo sao simplesmente indescritíveis. Hoje posso dizer que tenho amigos em muitas partes do mundo e são pessoas que já me disseram que terão o maior prazer de me receber e me hospedar se um dia eu for visitá-las, independentemente se são da Tailândia, da França ou do Azerbaijão. Essas pessoas e tudo o que aprendi com elas foi o meu grande aprendizado. Um fato interessante que me aconteceu há uns dois meses atrás foi que estávamos em um bar conversando e quando parei, reparei nós eramos 14 pessoas de 11 países diferentes nos comunicando em inglês. Isso pra mim foi algo que nunca vou esquecer.

Em relação às aulas que participei aqui, não tenho nada do que reclamar. Todos os professores são de muito alto nível, onde todos são doutores com diversas publicações e projetos. O mais interessante de tudo é que por mais atarefados que eles sejam eles sempre arrumam algum tempo pra poder responder dúvidas ou conversar acerca de algum assunto. Meus e-mails nunca demoraram mais de 48 horas para serem respondidos. Não creio que seja uma questão de nível intelectual o fator determinante para a diferença nas aulas, mas o fato de que os acadêmicos, os professores e toda a comunidade acadêmica é muito, mas muito mais interessada, muito mais participativa do que eu estava acostumado. As aulas são muito mais puxadas e confesso que demorei um pouco para me acostumar e pegar o ritmo da galera. Não que eu esteja desmerecendo a universidade de onde vim, e é claro que temos ótimos professores e acadêmicos, pessoas realmente interessadas na academia, mas não se pode dizer que seja maioria, pois pelo contrário, estes são poucos.

Qual sua expectativa em relação à sua carreira, depois de formado? Você pretende trabalhar fora do Brasil?

As minhas expectativas são as melhores possíveis, ainda mais depois de observar o que pode ser feito, o quão longe se pode ir e que ser uma pessoa bem sucedida com um bom emprego e uma vida bacana não é nada impossível de se fazer, independentemente de onde você venha. Uma das preocupacoes do Ciência Sem Fronteiras era em relação a como os acadêmicos iriam aplicar os conhecimentos adquiridos no exterior no Brasil. Quais oportunidades de emprego eles teriam e onde poderiam aplicar na prática aquilo que eles aprenderam em um ano (ou menos, depende do tipo de bolsa). Para tal eles criaram um portal onde todas as empresas que patrocinaram ou que participaram de alguma maneira da implementação do programa pudessem postar oportunidades de estágios e até mesmo empregos para os acadêmicos que participaram do programa. Basicamente os acadêmicos do Ciência Sem Fronteiras tem uma área em que eles podem colocar as especificações dos seus respectivos currículos e o portal gera uma lista com oportunidades de trabalho relacionados a área de atuação do candidato. Boa parte dos acadêmicos que eu conheço do programa aprovaram e muito esta iniciativa e estão muito animados com a volta ao Brasil. Talvez seja uma boa oportunidade.

Estive pensando acerca de tentar participar de um programa de Pós-Graduação em uma universidade do exterior assim que terminar minha gradução no Brasil. O fato é que as instituições no exterior geralmente oferecem bolsas de estudo relativamente “generosas” e uma estrutura bem interessante para seus acadêmicos. No entanto, são opções e eu ainda não tenho uma opinião bem definida. Talvez eu receba uma boa proposta de alguma empresa ou de alguma universidade no Brasil também. Por que não?

Você gostaria de deixar algumas palavras finais para os leitores? Sinta-se livre para falar de temas que ainda não foram abordados.

Pois bem, gostaria de agradecer a você pela entrevista. Confesso que me diverti respondendo as perguntas, principalmente as que falavam sobre curiosidades. E sempre que precisar de alguma informação ou algo que eu possa ajudar é só dizer.

Aos demais leitores eu gostaria de dizer que aquela história de que voce não deve deixar uma oportunidade passar se tentar agarrá-la é muito verdade; me lembro que quase não me inscrevi para o programa porque achei que o meu nivel de inglês não seria suficiente e alguns conhecidos tambem não o fizeram. Alguns diziam que era muita papelada pra resolver em pouco tempo, que não daria certo, que quando é algo muito bom é sinal de que não vai acontecer. E que pelo fato de sermos de uma universidade no Norte de Minas não teriamos chance de concorrer com as grandes universidades das cidades grandes como Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Nada disso é verdade. Não tenha medo de algo que você não acha que está totalmente preparado. Aceite o desafio. O que estes outros acadêmicos de outras universidades tem de melhor que você? Absolutamente nada. Eu tenho amigos brasileiros que fazem computação em diversas partes do Brasil (São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, etc.) e eu realmente aprendi muito com eles, mas eles também aprenderam muito comigo. Não deixe oportunidades passarem por se sentir incapaz de tentar. Não custa nada tentar. Você não tem nada a perder. O mínimo que você pode conseguir é um não, mas o máximo que você pode conseguir só depende de você.

Se alguém tiver alguma dúvida a respeito do Ciência Sem Fronteiras ou alguma outra informação a respeito de intercâmbio, opiniões ou algo relacionado e só entrar em contato comigo que eu respondo o mais rápido que eu puder. Um abraço a todos.

Nota do entrevistador: o e-mail dele é “carlosmr12 arroba gmail ponto com”