Quem lê o Myhro Blog há mais tempo sabe que nestes quase dois anos nunca apareceu por aqui um “review” de qualquer dispositivo - até porque textos do tipo é o que mais se encontra na imensidão da internet. Porém, dada a novidade que é o Kobo Mini, o menor e mais novo e-reader do Brasil, lançado oficialmente por aqui nesta semana (e também devido a algumas frustrações quais me deparei durante a configuração inicial do aparelho), sinto que esta é uma boa oportunidade de fazê-lo. Sendo assim, este é (possivelmente) o primeiro review brasileiro sobre o Kobo Mini.

Em pré-venda na Livraria Cultura (revendora oficial no Brasil) desde a semana passada, a previsão era que os aparelhos começassem a serem entregues aos compradores a partir desta última terça-feira, dia 22/01. Agradável foi minha surpresa ao me deparar com uma mensagem de e-mail ainda na segunda-feira, dia 21/01, dizendo que o produto já havia sido postado nos correios. Como a entrega foi feita via e-SEDEX, na manhã de ontem, quarta-feira, dia 23/01, o Kobo Mini chegou às minhas mãos. Minha maior vontade neste momento era simplesmente ligá-lo e começar a ler vorazmente o primeiro livro digital que encontrasse pela frente, com o único intuito de confirmar se tudo que ouço há anos sobre as telas e-ink era realmente verdade. Isto, infelizmente, foi o que não aconteceu.

Antes de poder usá-lo de fato, é necessário passar pelo rápido processo de configuração inicial, com um único detalhe que pode fazer uma de suas três etapas durar mais de duas horas (não sendo possível pulá-la). Escolhendo a opção de realizá-la pelo aparelho, através da internet, a primeira etapa consiste em definir data e hora, além de escolher o fuso horário. A segunda etapa também deveria ser um processo indolor, bastando apenas configurar o acesso à internet e atualizar o firmware do aparelho automaticamente, mas infelizmente não é assim que as coisas funcionam. Poderia ser até irrelevante o fato do teclado (na tela) do Kobo não possuir o acento grave (crase), mesmo sendo este um caractere (o número 96) da tabela ASCII (o que simplesmente pode lhe obrigar a mudar sua senha da rede sem fio), mas o pior não foi nem de longe isso.

Não sei se por culpa do meu provedor de acesso à internet, do servidor de atualização, das rotas do caminho ou simplesmente por vontade de Odin, o download era simplesmente realizado a uma velocidade média de 10KB/s, com picos de 20KB/s (a velocidade não é exibida, mas pude conferir olhando as estatísticas de uso da rede no routeador). Neste momento, parecia que a culpa era do aparelhinho que simplesmente não estava aguentando usufruir da velocidade da internet em sua totalidade. Cancelei o processo e escolhi a opção de reiniciá-lo, continuando com o auxílio de um computador. Baixei o “Kobo Desktop” (que não possui versão pra Linux, mas ninguém se importa), curiosamente a mais de 200KB/s, o instalei em uma máquina virtual com o Windows XP. Sem mais delongas, o aplicativo foi logo tratando de baixar a atualização, com a mesma lentidão de uma tartaruga reumática.

Como não podia fazer nada além de esperar, aproveitei para redigir um e-mail diretamente ao fabricante pedindo que, em um ato de humanidade, disponibilizem uma forma de atualizar o software do Kobo de forma offline. A Apple, rígida e controladora que é, permite isso no iTunes (com a velha tática de se segurar shift enquanto clica no botão “atualizar” e escolhendo um arquivo previamente baixado), por que eles não poderiam fazer isso? Eu não apenas poderia utilizar uma outra máquina (como um servidor em outro continente) ou um gerenciador de download para baixar este arquivo, como poderia aproveitá-lo para atualizar rapidamente o Kobo que pertence à minha namorada, ao invés de também fazê-la esperar por 2 horas em um processo que não deveria durar 10 minutos.

Passada toda esta frustração, na terceira etapa é obrigatório realizar o login em sua conta do Kobo ou da Livraria Cultura. Acho isso completamente desnecessário (não é possível fazer logout e continuar o utilizando normalmente), uma vez que pretendo utilizar o aparelho completamente offline, baixando os livros no computador e passando pra ele pelo cabo USB - o que também pode me proteger de situações orwellianas, como o absurdo dos livros removidos remotamente pela Amazon. Entendo que seja uma tentativa de incentivar a compra de livros através do aparelho, além de ser possível sincronizar as páginas onde você parou, anotações, estatísticas (uma das coisas mais legais dele) e coisas do tipo com o computador e sua conta, mas não deixa de ser incômodo o Kobo lhe obrigar a fazer isto.

Após um pequeno tour sobre suas funcionalidades, me deparei com a tela inicial, onde estão disponíveis livros para compra e onde posso acessar minha biblioteca pessoal. Não vou detalhar a utilização do aparelho, pois muita gente já fez isso. Gostaria apenas de destacar que o tamanho diminuto do Kobo Mini, com sua polegada a menos (5” contra 6”) que seu irmão mais velho, não atrapalha em nada a leitura nesta tela de papel digital. Algo que talvez possa lhe interessar é a possibilidade de aumentar a frequência com que a tela é atualizada por completo, limpando vestígios de telas anteriores e melhorando a nitidez do texto, mas fique ciente de que isso pode reduzir bastante a vida útil da bateria, que em suas configurações padrões (com wi-fi desativado) promete um mês de duração.

Veredito final: vale muito a pena, mesmo custando R$ 289,00 (contra US$ 79,99 lá fora). Estava pensando há alguns anos em adquirir um e-reader e não tive dúvidas quando me deparei com o Kobo Mini - foi amor à primeira vista (na verdade li sobre o Kobo Touch, mas a única diferença é o tamanho da tela e a possibilidade de se adicionar um cartão de memória). A liberdade de jogar qualquer ePub (ou PDF e mais um monte de outros formatos, embora eu recomende que você dê preferência aos ePubs) em seus mais de 1GB disponíveis (o que pode ser suficiente para mais de 1000 livros sem muitas imagens) e sair lendo confortavelmente em sua telinha, arrisco a dizer, é comparável ao prazer de se ler um livro com cheiro de papel recém-prensado.