Meu primeiro contato com o maravilhoso mundo dos computadores foi em 1996. Naquele ano, meu tio havia comprado um computador, que nem se eu quisesse me lembraria das configurações - embora devesse ser algo parecido com um Pentium 100 Mhz com 16 ou 32 MB de RAM, e me convidou para ir até seu apartamento ver a novidade. Lembro-me perfeitamente do ano pois minha mãe perguntou pra ele se o computador era novo, visto que o Windows que o acompanhava era o 95. Ah, a ignorância é realmente uma benção…

Era incrível como naquela época a gente conseguia se divertir com tão pouco. O principal uso do computador além da edição de textos, visto que a internet naquela época era praticamente uma lenda urbana, eram os jogos. Ou seja, meu tio havia praticamente comprado um video-game com uma (ou duas, visto que o MS Paint também era muito usado) funcionalidade a mais, porém 10 vezes mais caro. Não me recordo de todos os nomes, mas me lembro que jogava muito um jogo de futebol (provavelmente o Actua Soccer) e outro de aventura, além de Fatal Racing e Pitfall. É curioso lembrar que muitas foram as minhas tardes perdidas jogando, quando hoje não tenho paciência para fazê-lo por meia hora sequer.

Conheci o Linux apenas alguns anos mais tarde, no longínquo mês de dezembro do ano de 2002. Na verdade eu já havia ouvido falar, por falto, de um sistema operacional alternativo com este nome, mas nunca havia me informado mais a respeito ou mesmo o visto rodando. Foi a partir daí que adquiri uma revista, a finada PC Master, falando sobre o Red Hat Linux 8 (quando este ainda não era uma distribuição comercial e o Fedora nem existia), acompanhada de três CDs (a instalação original era composta por seis discos, sendo os demais manuais e fontes).

Os próximos meses foram basicamente destinados a reunir mais informações e adquirir mais revistas com CDs de outras distribuições, como o Mandrake, o Conectiva (quando ainda nem eram Mandriva), o próprio Debian e outras menos conhecidas. Embora eu tivesse acesso à internet desde 2001, baixar uma imagem de CD de 700 MB com um modem de 14.4 Kbps (isso mesmo, quatorze mil e quatrocentos bits por segundo - e você ainda acha sua conexão de 2 Mbps lenta) beirava a impossibilidade. Foi somente no final de 2003, salvo engano, que tive o privilégio de acessar a rede mundial de computadores a partir de uma conexão discada de 56 Kbps.

O detalhe mais curioso desta época é que eu não podia instalar nenhuma distribuição Linux. Os computadores que usava eram os da loja do meu pai e eu simplesmente não tinha permissão para instalar qualquer coisa a torto e a direito neles (embora as vezes eu o fizesse). A oportunidade mais próxima que tinha de experimentar outro sistema operacional era o executando a partir do CD (tarefa em que o Kurumin ajudou bastante) ou dando boot a partir de uma partição FAT32 (o que era comum em computadores com Windows 9x).

Foi somente no começo de 2005, pouco mais de dois anos depois do meu primeiro contato com o universo Linux, que ganhei um computador que era verdadeiramente meu, tendo portanto a liberdade de instalar o que bem entendesse. Ainda assim, não utilizei o Linux no desktop devido a diversos pequenos empecilhos (desde Winmodens a problemas de usabilidade), que me levaram a acreditar e defender veementemente que o lugar do Linux é em qualquer outro (celular, servidor, supercomputador, etc.), senão no desktop. Mesmo assim, o conhecimento adquirido, através de anos de instalações frustradas e noites em claro envolvido com o Linux, me ajudou a conseguir meus três primeiros empregos/estágios, além de diversas outras propostas e, atualmente, uma proposta internacional.

Costumo dizer que não existe melhor qualidade do que a curiosidade para alguém que trabalha com Tecnologia da Informação e suas áreas correlatas. Creio que minha história com o Linux é um belo exemplo disto. Hoje utilizo o Debian no meu notebook não porque é o melhor sistema operacional para desktops existente, mas sim porque não quero perder a fluência que adquiri na linha de comandos (além de ser inegável a praticidade que o terminal me traz no dia-a-dia) e também por não precisar de nenhum software pago (ou pirata) para desempenhar minhas atividades corriqueiras. Este texto, inclusive, foi escrito no melhor editor de textos existente e que, pasmem, não custa um centavo (a não ser que você queira doar dinheiro para as crianças em Uganda): o Vim.