Myhro Blog

Dos quase extintos valores morais

Em maio do ano passado eu expressei aqui minhas preocupações com o presente e futuro da educação e do país como tudo. O mais triste é voltar aqui muitos meses depois e perceber que se as coisas mudaram, foi pra pior. O que está aqui descrito não é nenhuma novidade. O próprio escritor e senador Rui Barbosa nos alertou sobre os tópicos seguintes há quase 100 anos. Um século é um tempo razoável para grandes e profundas mudanças, mas pelo visto preferimos desperdiçar este tempo nos preocupando com coisas menos importantes.

Neste feriado, um primo de segundo ou terceiro grau qual não via há pelo menos 10 anos veio nos visitar. Em uma conversa corriqueira com meus familiares, o mesmo revelou que já foi parado por quase meia dúzia de vezes dirigindo sem carteira e conseguiu se livrar, sem sequer uma multa, em todas as ocasiões. Descrevendo como conseguiu tamanha proeza, revelou que a tática era muito simples: tentava argumentar com o policial por alguns minutos e, se isto não funcionasse, ligava para um tio que era um policial de alta patente com muitos anos de carreira. Disse, inclusive, que certeza vez este tio fez questão de ir até a blitz e, digamos, resolver a situação de forma não educada.

O fato me lembrou um episódio da excelente minissérie ”O Brado Retumbante”. No episódio, o Deputado e Ministro da Justiça, Floriano Pedreira (interpretado por José Wilker), é preso em uma investigação da Polícia Federal sobre desvio de verbas públicas. Após sua libertação, um amigo pergunta se ele recebeu um salmão que havia sido enviado para a carceragem e este responde: “Que carceragem? E eu sou lá homem de carceragem? Eu fiquei em um sala. Uma sala muito maior, inclusive, que a sala do chefão da polícia.” Quando seu amigo elogia o juiz que o soltou, dizendo que é ele “é muito bom, excelente”, o senador qual articulou sua soltura exclama: “Excelentes são as relações que eu cultivei ao longo de cinquenta anos de vida pública”.

Na semana passada estive conversando com um colega a respeito da diferença (inexistente), moralmente falando, entre utilizar, para fins pessoais, uma impressora ou um helicóptero que pertencem ao Estado. É muito fácil apontar os erros dos outros, fechando os olhos para suas próprias atitudes. Receber (conscientemente) troco a mais é tão errado quanto se apoderar de dinheiro público. Às vezes tem-se a impressão que se algo é realizado em uma escala menor, não há nada de errado nisto. Afinal, papel é muito mais barato que combustível de aviação, não é mesmo?

Tenho a impressão que cada vez mais as pessoas se importam menos com valores morais. O caso recente do Senador Demóstenes Torres é muito mais triste do que parece, por se tratar de uma pessoa que por diversas vezes discursou a favor da moralidade e contra a corrupção. Esta entrevista/desabafo com o Senador Pedro Simon, alguém com mais de 20 anos de Senado e outros mais de 50 de vida pública, retrata muito do momento em que estamos passando no nosso país.

Cabe aqui uma frase do, já citado, ilustríssimo Rui Barbosa:

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto…”

– Senador Rui Barbosa, em seu discurso na sessão do dia 17 de dezembro de 1914 no Senado Federal.