Ando muito preocupado com a educação no Brasil. Embora o descaso dos poderes públicos não seja novidade, não tem se passado uma semana sem uma notícia completamente triste e decepcionante relacionada à educação, muitas vezes vinda do seu próprio Ministério. O excelente texto “Sobre burros e veados” do Helder Caldeira, retrata o caso do meio milhão de livros (pagos por mim e por você) quais defendem a não existência do “certo e errado” na língua portuguesa. Quinhentas mil crianças sujeitas a engolir tamanha barbárie. Será se isso realmente não tem importância?

É difícil acreditar no futuro deste país. Defender os “10% do PIB” não vai solucionar os problemas da educação porque dinheiro não é a única coisa que falta. Estudo em uma universidade pública onde os professores são muito bem pagos e a grande maioria deles está pouco se lixando pros alunos. Muitos sequer sabem ensinar e provavelmente só se tornaram professores porque não tinha ninguém melhor para assumir o cargo. Precisamos de muito mais que dinheiro. Precisamos não só de pessoas capazes e responsáveis, mas de compromisso de todas as partes envolvidas. Desde o aluno do primário ao Presidente da República.

A própria política de cotas por si só é um atestado de negligência do Estado: “não os daremos ensino básico de qualidade, mas aqui tem uma lei que abre uma brecha pra facilitar a entrada de vocês na universidade…”. Pronto, o cidadão que não teve uma educação fundamental gratuita e de qualidade agora tem um tapinha nas costas e um belo “se vire, você está no ensino superior. O problema agora é seu”. Não que o vestibular seja a forma mais justa de se medir a capacidade de um estudante, mas sancionar leis para facilitar porcamente o ingresso na graduação também não o é.

Tive colegas cotistas que desistiram nas primeiras semanas na universidade “porque é muito difícil”. Não foram pessoas que trabalhavam e não tinham tempo pra estudar. Eram pessoas despreparadas, que não tinham capacidade de estar na graduação e caíram lá de paraquedas, mesmo tendo conseguido menos da metade dos pontos na prova de seleção. Não que o estudante não tenha direito de desistir durante a faculdade, mas a partir do momento que ele estava lá no lugar de alguém provavelmente mais bem preparado, tem algo muito errado acontecendo.

Isso sem falar nas ditas instituições privadas de ensino superior, que salvo pouquíssimas exceções, não são mais do que mercadinhos imorais de venda de diplomas. O pior é que muitos cursos das mesmas são aprovados pelo próprio Ministério da Educação. Conheço diversas pessoas quais fazem cursos semi-presenciais nestas faculdades de mentirinha e vão lá apenas uma vez na semana. Se indo todos os dias na universidade não dá pra se aprender tudo necessário em 4 ou 5 anos, o que podemos dizer de um curso semanal?!

Dizem que um governo é o reflexo do seu povo. Vivemos em um país onde temos uma presidenta eleita apenas pela popularidade do seu antecessor (que tem mostrado seus interesses recentemente). Nosso excelentíssimo ex-presidente (ou seria atual?), embora seja uma das pouquíssimas pessoas bem sucedidas sem estudo, faz questão de pregar a política da ignorância. Não é difícil de imaginar a qualidade da educação que seus eleitores receberam e irão continuar recebendo. Ao final, basta colher os frutos. Uma pena que apenas os poderosos os estejam colhendo. Nas urnas, a cada 2 ou 4 anos.

“Educação é a bala de prata. Educação é tudo. Não precisamos de pequenas mudanças, precisamos de mudanças gigantescas, mudanças monumentais. Escolas deveriam ser palácios. A competição pelos melhores professores deveria ser selvagem; eles deveriam ganhar salários de 6 dígitos. Escolas deveriam ser incrivelmente caras para o Governo e absolutamente gratuitas para os cidadãos, como a Defesa Nacional.”

– Frase do personagem Sam Seaborn, interpretado por Rob Lowe no seriado The West Wing. Embora dita pensando na realidade norte-americana, adapta-se perfeitamente a qualquer nação. …